Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Mãos partilham moedas sobre uma mesa de trabalho.Pregações

Talento e Tô Lento

Amados irmãos, amadas irmãs,

em 1862 o escritor suíço Jean-Jacques Rousseau lançava o seu livro “O Contrato Social” onde logo no início afirma: “o homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros”1. O tema da liberdade acompanha pensadores a muito tempo. Basta lembrarmos também de Martinho Lutero que tinha como sobrenome original a palavra Luder que significava vagabundo, mas que, ao redescobrir o Evangelho, mudou o seu nome para Luther que significa Liberdade, deixando de ser Martin, o vagabundo para ser Martin, o Liberto.

O tema da liberdade continua passando pelos séculos, pois sempre de novo somos capazes de inventar novas formas de escravidão. No Culto da Reforma, por exemplo, vimos como a polarização a partir das redes sociais pode ser uma dura e difícil escravidão da qual não conseguimos sair e na qual somos continuamente condicionados a acreditar no que as próprias redes nos mostram. O tema da liberdade precisa ser resgatado novamente, novamente e novamente.

Em seu discurso histórico em Washington em 28 de Agosto de 1963, o Pastor Batista Norte-Americano Martin Luther King afirmou enquanto lutava para que os negros pudessem ter os mesmos direitos civis que os brancos:

Quando ressoar a liberdade, quando a liberdade ressoar em cada vila e em cada lugarejo, em cada estado e cada cidade, anteciparemos o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, juntarão as mãos e cantarão as palavras da velha canção dos negros: Livres afinal! Livres afinal! Graças ao Deus Todo-Poderoso, estamos livres afinal!2”

Entretanto, mesmo em 2020 o racismo volta a aparecer em suas múltiplas maneiras e, como se o clamor daquele pastor norte-americano Nobel da Paz em 1964 não tivesse tido efeito nenhum, mas teve, mesmo que inventemos novas formas de escravidão.

Mas, qual é a ligação disto com a conhecida parábola dos 10 talentos? O que esta parábola quer dizer além do óbvio? Porque aquele que apenas preservou o seu talento não foi aceito entre os outros, sendo que foi prudente? Porque apenas os que multiplicaram foram reconhecidos pelo senhor da parábola? São perguntas bem intrigantes e que estão muito bem ligadas com o tema da liberdade cristã.

Fato é que continuamos criando novas formas de escravidão. Porém, do ponto de vista cristão a situação não é tão simples. Jean-Jacques Rousseau, como ouvimos, afirmou que “o homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros.” Dentro do mundo social e político, isso é verdade, mas teologicamente não. Jean-Jacques Rousseau não está errado ao afirmar que como sociedade buscou novas formas de escravidão. Porém, biblicamente falando, o movimento é ao contrário. Para a sociedade, Rousseau está correto; para a Igreja, sua verdade não se aplica, o que não a torna necessária no mundo.

Na fé cristã o movimento é ao contrário. A Bíblia testemunha que nascemos escravos. Sim. Do ponto de vista bíblico, já nascemos acorrentados e condicionados a fazer o que é mal. Já nascemos acorrentados e condicionados a fazer aquilo que não agrada a Deus. Isso acontece por causa do pecado. Não apenas os que fazemos no dia a dia, mas o pecado original de Adão e Eva que afetou toda a humanidade e também toda a criação de Deus. O cristão não nasce livre; ao contrário, ele nasce escravo de si mesmo, de suas ambições, de suas cobiças, de seus desejos, de sua vontade de poder, de querer ser igual a Deus.

O apóstolo Paulo irá testemunhar disso com as seguintes palavras em Romanos 7.19-20: “Porque não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.” Percebeu? Queremos fazer o bem, mas continuamos fazendo o mal. E isso acontece não apenas por que fazemos o mal, mas porque o pecado habita em nós e porque em nós mesmos não há nada que possa remover a mancha do pecado.

O pecado é a nossa tragédia, o nosso destino e a nossa responsabilidade. É o brete de todo ser humano. Estamos acometidos pela tragédia do pecado desde o nosso nascimento e tudo o que fazemos – até as coisas boas – estão debaixo do sinal do pecado. Agostinho, um Pai da Igreja que viveu há quase dois mil anos atrás, dizia: “eu não posso não pecar!”. O pecado é nosso destino. Tudo o que faremos é pecado. Bem como também uma responsabilidade plenamente nossa por tudo o que fizemos neste mundo.

Entretanto, Deus não deixou o ser humano ir para o brete, para a morte e para o inferno. Primeiramente, Deus providenciou a Lei que tem como função preservar a vida. Para isto existem regras. Para isto existem as leis, quer gostemos delas ou não. É para isso que existe o Mandamento não matarás, mas também não roubarás, não cobiçarás, assim por diante. Ou atualizando para os dias de hoje, não falarás ao celular no volante. Poderia ser o Décimo Primeiro Mandamento. Por que existem estas leis? Para que a vida seja preservada, tanto a nossa como a do próximo.

A esse modo de vida a fé tem um nome bem específico: economia. O que é economia? Economia vem das palavras gregas oikos = casa e nomia = regras. Economia são as regras da casa. É aquele olhar para a despensa e saber se tem comida de chega ou precisa comprar mais. Ao precisar comprar mais, é o olhar para a carteira ou o banco e ver de quanto dinheiro se dispõe. Todos somos economistas porque temos regras para a boa administração da nossa casa. São regras que pretendem preservar a vida. O mesmo ocorre com a economia da igreja onde se tem regras para administrar os recursos comunitários; o mesmo também para o município, estado e país. Economia são as regras da casa, mas não apenas da nossa casa enquanto construção, mas também as regras da preservação da casa comunidade, da casa cidade, da casa estado, da casa país e até da casa mundo. E as regras da casa visam sempre a preservação da vida, pois a preservação da vida é a primeira função da Lei, conforme Martinho Lutero. Logo, quando alguém fala ao celular ao volante, esta pessoa está quebrando a economia porque está quebrando uma regra da casa cidade, estado e país que quer preservar a sua vida e a dos outros que estão no trânsito. Economia não é algo restrito aos governantes municipais, estaduais e nacionais, mas algo exercido por nós em casa, no trânsito, no trabalho, nos estudos, assim por diante. E pela graça de Deus, somos livres para cuidar! A casa cidade, estado, país e mundo em que vivemos não é apenas minha, mas nossa: é uma casa comum onde cada um exerce sua responsabilidade.

E isso se encaixa com o texto que ouvimos anteriormente. Aquele homem iria se ausentar por um tempo e três servos são chamados. A eles são confiados bens que deveriam ser bem administrados conforme a economia, ou seja, as leis da casa que querem preservar a vida. Dois deles administram bem os bens e até o multiplicam, já outro ficou com medo e resolveu esconder o talento para não correr o risco de perder aquilo que lhe foi confiado.

Roger Scruton, um filósofo inglês que morreu em Janeiro deste ano, diz que só pode haver troca de bens e serviços

somente onde há confiança entre os integrantes, e a confiança só existe onde as pessoas assumem a responsabilidade por seus atos e se tornam responsáveis por aqueles com quem negociam. Em outras palavras, a ordem econômica depende de uma ordem moral.3

Pastor, o que é moral? Moral, de modo bem resumida, é o modo como a pessoa age, quais os princípios e valores que ela tem, se obedece as regras e as leis ou as quebra, se age com boa conduta ou com corrupção, assim por diante. Por isso, precisa haver confiança! Você faria negócios com quem não confia? Claro que não! Assinaria de avalista para alguém que está com o nome sujo na praça? Responda você.

Fato é que aquele homem confiou na responsabilidade daqueles três servos. Ele, de fato, acreditou que eles fariam uma boa administração com os talentos recebidos. Entretanto, dois deles administraram bem e o outro ficou com medo. Afinal de contas, porque dois foram reconhecidos e aquele outro, mesmo que tenha devolvido exatamente o que tinha recebido, não foi aceito? A resposta está em uma palavra: Liberdade!

Nesta parábola, o importante não é a quantidade. Se o que ganhou cinco talentos também os tivesse enterrado, certamente também não seria aceito. Não é a quantidade que importa, mas o que se faz com o que se têm! O texto não está julgando o homem que tinha apenas um talento por ter apenas um talento. Não são as suas posses o critério, mas a sua atitude diante das posses. Obviamente também que mais do que tudo, o texto não está falando das posses materiais ou financeiras que podemos ter (embora que poderíamos traçar muitos paralelos também com isso). O significado da parábola é espiritual! E a chave para entender a parábola está na palavra liberdade!

Jesus está falando dele mesmo nesta parábola. Ele é o homem que irá para outro país. Jesus irá morrer na cruz, ressuscitar e subir aos céus. Enquanto ele estiver nos céus, ele derramou sobre a Igreja dons e talentos que devem ser bem usados e administrados para a preservação da vida. Os dons e talentos não servem a quem os tem, mas àquele que os enviou. Os dons e talentos não servem para glorificar o ser humano, mas para glorificar a Deus. Como dizia o Prof. Euler Westphal na faculdade: “Quem acha que tem todos os dons, ele se acha.”

Os dons foram dados a nós por Deus não para nos servirmos com eles e engrandecermos o nosso nome. Os dons e talentos foram dados por Deus para servirmos a Deus por meio do próximo. Os dons e talentos são administrados e usados a partir da prática do amor, seja na música, na liturgia, pregação, serviço, trabalho, diaconia, lavar um chão, trocar uma fralda, assim por diante, não havendo, em nada disso, dons maiores e dons menores.

Todos os cristãos e cristãs receberam dons e há uma diversidade nos dons, conforme Paulo testemunha em 1 Coríntios 12 a qual você pode ler em algum momento, se quiser. Um sabe cantar, outro pregar, outro organizar, outro consertar, outro administrar, outro limpar e todas as mãos unidas à obra fazem parte da economia que é a boa administração no Reino de Deus. Molhar uma flor é tão digno quanto vir a este púlpito e pregar a Palavra de Deus. Alguns recebem uns talentos e outros recebem outros talentos. O importante é usar os talentos no Reino de Deus e para Deus.

E a Liberdade? Dois daqueles servos entenderam a Liberdade Cristã. Eles chegam a arriscar o que receberam do homem para, em sua administração, conseguir multiplicar os talentos. Eles são livres e se sentem completamente à vontade no Reino de Deus para servir a Deus por meio do próximo. Eles não são tomados de medo daquele que lhes deu os talentos. Não ficam angustiados e apavorados enquanto ele não volta. Enquanto o homem não volta, vão administrando com alegria, amor e liberdade os talentos que receberam. Enquanto Jesus não volta, somos convidados a usar nossos dons e talentos com toda alegria, amor e liberdade, não por obrigação ou orgulho, mas por espontaneidade.

Já aquele outro servo não foi julgado por ter apenas um talento, mas por não ter liberdade em usar bem aquele talento. Este servo pode ser comparado àquele que já ouviu tanto da Palavra de Deus, mas ainda tem medo de Deus, ainda não compreendeu a graça de Deus, ainda não confia em Deus. Vive alheio a Deus ou com medo que a qualquer momento Deus irá jogar um raio em suas cabeças caso desobedeçam. Conta-se uma história da Idade Média em que três homens estavam caminhando e, de repente, dois deles foram atingidos por um raio. Aqueles dois morreram e o terceiro sobreviveu. Aquele terceiro teria sobrevivido só porque foi à missa naquele dia pela manhã. Esse é o problema! Quando vivemos com medo de Deus e medo do seu castigo. Quando vivemos com medo de Deus, não encontramos a verdadeira liberdade de usar nossos dons e talentos para servir a Deus por meio do próximo!

Quem vive com medo de Deus não consegue servir com liberdade. Ao contrário, está tão submetido ao medo que mal consegue viver. Vive oprimido e escravo de si mesmo e de seus sistemas religiosos de salvação por obras. Quem tem medo de Deus esconde seus talentos com medo de não saber usá-los muito bem. Já aquele que compreendeu a graça, vive a partir da liberdade, sem medo do julgamento, do juízo, da morte e do inferno porque estas são realidades já vencidas por Cristo Jesus na cruz. O pecado, o juízo, a morte eterna e o inferno já foram aniquilados e esmagados por Jesus na cruz. Jesus nos liberta para vivermos pela graça para usarmos nossos talentos servindo a Deus por meio do próximo. Nascemos escravos do pecado, mas fomos libertos pela Deus que morreu na cruz!

Amados irmãos, amadas irmãs,

quais são os seus talentos? O que Deus te deu? Quais são seus dons? O que você sabe fazer muito bem? Não vem dizer que não sabe fazer nada, pois alguma cosia sabemos fazer. Acredite: estes dons e talentos que Deus te deu podem ajudar muito no Reino de Deus. Já temos belas iniciativas em nossa Paróquia de talentos e dons usados para servir a Deus por meio do próximo. O último mais lembrado é das duas OASEs fazendo máscaras para doar a instituições que cuidam de idosos. É isso! Usar os talentos sem medo de Deus, mas com liberdade, pois Cristo nos libertou. Se somos livres, podemos servir amorosamente ao mundo ainda preso em várias amarras de escravidão.

Confiança em Deus. Uma relação pautada no medo não gera confiança. Uma esposa que tem medo do esposo dificilmente irá permanecer com ele por causa de confiança. Ao contrário, o vínculo será o medo. Este é o perigo. O mesmo diante de Deus: se vivemos nossa fé com medo de Deus, algo está errado. Agora, se vivemos a nossa fé em Deus em liberdade, podemos confiar mesmo não entendendo as coisas que nos acontecem na vida.

Somos livres para usarmos nossos dons e talentos. Vamos arriscar e usá-los não para conquistar a salvação, não para promover nosso nome e não para ganharmos algo em troca, mas simplesmente porque somos livres para servir a Deus por meio do próximo.

E termino citando mais uma vez a poderosa palavra do P. Martin Luther King:

Quando ressoar a liberdade, quando a liberdade ressoar em cada vila e em cada lugarejo, em cada estado e cada cidade, anteciparemos o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, juntarão as mãos e cantarão as palavras da velha canção dos negros: Livres afinal! Livres afinal! Graças ao Deus Todo-Poderoso, estamos livres afinal!4”

Amém!

Notas e referências

  1. ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. São Paulo: Hunterbooks, 2014. p. 19.

    ↩
  2. KING JR., Martin Luther, 1964. In: VILLA, Marco Antônio. 50 Discursos que mudaram o Brasil e o Mundo. São Paulo: Planeta, 2018. p. 293.

    ↩
  3. SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019. p. 37.

    ↩
  4. KING JR., Martin Luther, 1964. In: VILLA, Marco Antônio. 50 Discursos que mudaram o Brasil e o Mundo. São Paulo: Planeta, 2018. p. 293.

    ↩