Teologia LuteranaTeologia da Glória X Teologia da Cruz
O reformador alemão Martinho Lutero escreveu em 1518, no início da Reforma do séc. XVI:
O teólogo da glória afirma ser bom o que é mau, e mau o que é bom; o teólogo da cruz diz as coisas como elas são. Isso é evidente, pois enquanto [o teólogo da glória] ignora Cristo, ele ignora o Deus oculto nos sofrimentos. Por isso, prefere as obras aos sofrimentos, a glória à cruz, o poder à debilidade, a sabedoria à tolice e, de um modo geral, o bem ao mal. Esses são os que o apóstolo chama de inimigos da cruz de Cristo (Filipenses 3.8), certamente porque odeiam a cruz e os sofrimentos, ao passo que amam as obras e a sua glória. Assim, [os teólogos da glória] chamam o bem da cruz de um mal, e o mal da obra de um bem. Já dissemos, no entanto, que Deus não é encontrado senão nos sofrimentos e na cruz. Os amigos da cruz afirmam que a cruz é boa e que as obras são más, porque, pela cruz, são destruídas as obras e é crucificado Adão; pelas obras, este é, antes, edificado. Portanto, é impossível que não se envaideça com suas boas obras a pessoa que não for primeiramente exinanida e destruída pelos sofrimentos e males, até que saiba que ela mesma nada é e que as obras não são suas, mas de Deus1.
Por que é tão difícil contemplar Jesus na cruz? Lutero acredita que o motivo é o fato do ser humano estar contaminado pela teologia da glória que quer glorificar as boas obras, os êxitos e os sucessos – mas jamais os sofrimentos. A teologia da glória faz o ser humano se envaidecer e glorificar as próprias conquistas; como símbolo da teologia da glória, a cruz vazia se torna o símbolo do sucesso, do êxito e da ocultação dos sofrimentos – pois os sofrimentos são vistos como vergonha e fracasso que precisam ser superados e “deixados de lado”. A teologia da glória ignora, rejeita e oculta o sofrimento, pois tudo o que importa é o sucesso, o êxito, o triunfo e a felicidade.
Em tempos hedonistas como os nossos, a teologia da glória encontrou seu momento para se espalhar no mundo evangélico, aplicando doses extensas de dopamina (um dos neurotransmissores do prazer) através de pregadores da teologia da prosperidade e pregadores coachs que, como inimigos da cruz de Cristo (cf. Filipenses 3.8), ignoram e rejeitam o fracasso da cruz como um bem. Preferem, antes, a glória, o show de luzes de led e a pregação coach do sucesso, da prosperidade e de que “todo o potencial está em você: basta despertá-lo”; por isso, dão um “viva!!!” à ressurreição e ignoram a crucificação – embora o próprio Jesus tenha ressuscitado com as marcas da sua imensa dor (cf. Lucas 24.36-40) como um aviso de que a cruz jamais deverá ser esquecida, abandonada ou rejeitada.
Contra Erasmo de Roterdã, Lutero escreveu o “De servo Arbítrio” (Da Vontade Cativa) em 15252. Nesse escrito, Lutero argumenta que o ser humano não possui livre-arbítrio, mas que sua vontade está totalmente escrava do pecado – e tudo quanto faz está marcado com o pecado, até as coisas boas. Por isso, a Salvação precisa vir de fora: Deus tomou a iniciativa ao oferecer Jesus pela salvação do ser humano totalmente escravo do pecado. Não há, portanto, mérito, glória ou vanglória no ser humano quanto à sua salvação: ela é uma dádiva de Deus que torna as pessoas pecadoras iguais – mesmo que não queiram ser iguais, mas teimem a partir da teologia da glória em apontar o sucesso pessoal como mérito à salvação, ignorando os méritos de Cristo.
Por isso, a teologia luterana é chamada de “teologia da cruz”, pois é amiga da cruz de Cristo e considera os eventos da crucificação e da ressurreição unidos como centro da fé cristã, haja visto que não haveria ressurreição sem antes acontecer a crucificação. A teologia da cruz, portanto, não enxerga a ressurreição como um “sucesso inesperado em uma reviravolta” que acabou escondendo “a parte ruim” da história; ao contrário, a teologia da cruz vê a ressurreição como caminho que só seria possível através da glória da cruz. Portanto, a teologia da cruz enfatiza que a glória de Deus não é encontrada apenas no Domingo de Páscoa, mas também na densa e escura Sexta-feira da Paixão onde a humanidade contemplou os sofrimentos de Deus.
Vivemos hoje uma “happycracia”3 onde a felicidade e o prazer precisam ser conquistados a todo custo – e, quando são conquistados, fazem o ser humano se gloriar de seus próprios méritos pela sua conquista. Não é nenhum pecado se alegrar com as conquistas que conseguimos ao longo da vida. Contudo, há problemas quando a “happycracia” nos cega ao ponto de não conseguirmos enxergar a glória de Deus nos sofrimentos de Jesus na cruz ou do próximo diante de nós com seus dilemas, enfermidades e calamidades.
A teologia da glória é uma fonte de alienação da realidade. Ela coloca uma venda no ser humano pecador para que não veja o próprio pecado e não veja a glória de Deus nos sofrimentos de Jesus Cristo – que salva dos pecados. A teologia da glória engana o ser humano ao fazê-lo ver apenas o que é bom, deslumbrante e cheio de sucesso. Por isso, Lutero escreveu que a teologia da glória faz o que é mau ser bom: as obras (a glória, o sucesso, os méritos), mesmo que não salvem, são transformadas no conteúdo mais importante a respeito da salvação, como se fossem a fonte da salvação – a mesma mentira contada pela serpente no Jardim do Éden ao fazer o ser humano acreditar que a partir do conhecimento do bem e do mal ele poderia ser igual a Deus. Assim, a teologia da glória deixa o ser humano míope ou cego para a realidade do seu pecado e da necessidade de arrependimento e conversão ao Cristo crucificado e ressuscitado.
Já a teologia da cruz escancara a realidade que não quer ser vista e, segundo Lutero, desmascara o rosto de Deus enquanto rosto cheio de sofrimento, misericórdia e graça: eis a glória de Deus fendida nos sofrimentos da cruz. Olhar para a imagem de Cristo na cruz significa não conseguir ignorar a verdadeira realidade de que toda a vontade do ser humano está escrava do pecado e de que a salvação precisa vir de fora – e veio no Cristo crucificado. A teologia da cruz não engana o ser humano: ela diz que realmente somos todos pecadores carecidos da glória de Deus (cf. Romanos 3.23); aqui não está a mentira da serpente, mas a própria verdade de Deus pregada no madeiro da cruz e escancarada para que todas as pessoas vejam e creiam no Filho de Deus.
No Cristo crucificado e ressuscitado, está todo o amor, todo o consolo e toda a misericórdia de Deus. Na imagem do Cristo crucificado encontramos o principal símbolo da fé cristã. Durante os seus três anos de ministério, o próprio Senhor Jesus deu grande ênfase à sua obra de cruz – e não apenas à ressurreição: a imagem do Cristo crucificado é a tradução de João 3.16 para o mundo das pinturas e esculturas: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João Batista ao ver Jesus não mencionou a ressurreição, mas a cruz ao dizer “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1.29).
A verdadeira teologia evangélica de confissão luterana é, portanto, teologia da cruz: a contemplação do amor de Deus crucificado no madeiro para que a vontade humana que é cativa do pecado possa ser liberta para servir à vontade de Deus, pois o ser humano é simultaneamente justo e pecador por causa de Cristo. A imagem do Cristo crucificado é um lembrete do amor de Deus, de que as obras não salvam, de que a glória não está nos méritos e no sucesso, mas que a glória de Deus está na obra de Cristo que com seus próprios méritos conquistou a nossa Salvação na cruz, tornando os seres humanos iguais e cessando toda vanglória humana diante de Deus.
No mundo das artes luteranas, haverá grande ênfase em retratar os sofrimentos de Jesus na cruz – nunca com uma cruz vazia, mas sempre com a imagem de Cristo pendurado no madeiro –, como as pinturas medievais de Lucas Cranach, o Velho e de Lucas Cranach, o jovem. Da mesma forma a música luterana sempre buscou traduzir para o mundo dos sons a angústia do Cristo crucificado, como na letra da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach que, em seu primeiro coro, convida para que o Cristo crucificado seja contemplado em seu sofrimento, paciência e inocência como fonte da nossa esperança. Antes do movimento evangelical e da música gospel escancararem a teologia da glória e as espalharem por todo o mundo evangélico, a música evangélica passava inevitavelmente pelo monte do Calvário para contemplar o Cristo crucificado, pois a ênfase estava na teologia da cruz – uma ênfase cada vez mais ausente, especialmente nas músicas do mundo evangélico atual.
Portanto, o Cristo crucificado revelou o rosto misericordioso de Deus ao ser humano que tem sua vontade cativa do pecado. Na sua fronte ensanguentada, marcada pelo horror da humilhação, desprezo e dor encontramos a verdadeira glória de Deus que nos libertou de uma vez por todas não apenas dos nossos pecados, mas também da busca da salvação por obras e pelos próprios méritos que sempre são a grande tentação da teologia da glória.
A teologia da glória nasceu em Gênesis 3 quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e precisaram, através de folhas de figueira (boas obras) se justificarem diante de Deus a partir dos próprios méritos (que, na verdade, não existem); já a teologia da cruz nasceu na escura Sexta-feira da Paixão quando no Filho, a segunda Pessoa da Trindade, Deus morreu na cruz para por seus méritos e por sua obra salvar o ser humano pecador por graça – e libertar o ser humano da necessidade de apresentar méritos e obras diante de Deus como meios de salvação.
Por isso, com fé, esperança e amor, contemplemos o Cristo crucificado não como uma ameaça à nossa fé, mas como uma fonte de consolo, ajuda e salvação – especialmente em meio aos nossos sofrimentos. O Cristo crucificado é empático aos nossos sofrimentos, pois ele mesmo os sentiu na cruz: o Deus cristão sabe o que é sofrer. Contemplemos o Cristo crucificado como a lembrança de que as nossas obras não salvam, mas de que a pessoa que foi salva faz boas obras – não para apresentar seus méritos diante de Deus, mas para cumprir livremente o mandamento do amor ao próximo. E, por fim, contemplemos ao Cristo crucificado tal qual diz a letra de um hino:
1. Na cruz eu quero te saudar,
Cordeiro do meu Deus, sem par,
com coração ardente.
Da cruz tu pendes a sofrer,
por mim, Senhor, hás de morrer,
calado e obediente.
Mas pela fé eu posso ver
em todo o teu cruel sofrer
de Deus a majestade!
Cordeiro, digno de louvor,
serás chamado Rei, Senhor,
por toda a eternidade.
2. Seguir-te quero em morte e dor,
tu, que és da Salvação Senhor,
nada há de separar-nos.
À nossa frente queres ir
e assim segura via abrir
aos crentes teus, amados.
Por seres obediente assim,
tudo é possível para mim,
já que por mim morreste.
Não temo a morte, e, no sofrer,
por toda a vida hei de saber
que tu, Senhor, venceste.4
Amém.
Novo Hamburgo/RS, 02 de Maio de 2025.
Notas
LUTERO, Martinho. O Debate de Heidelberg - 1518. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 1: Os primórdios – Escritos de 1517-1519. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2016. p. 50.
↩LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa – 1525. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 4: Debates e Controvérsias II. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1993.
↩Para saber mais, recomendo os livros: CABANAS, Edgar; ILLOUZ, Eva. Happycracia – fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu Editora, 2022. MAFFESOLI, Michel. A sombra de Dioniso. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
↩Hino “Na cruz eu quero te salvar” com Letra de Valentin Ernst Löscher e Música de Matthäus Greitter. Livro de Canto da IECLB, nº 413.
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