PregaçõesTragédias são castigos de Deus?
Será que as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul no ano passado eram os piores pecadores e receberam um castigo merecido? Será que as pessoas que são vítimas de acidentes de trânsito são os mais pecadores e só receberam o castigo pelos seus pecados? Será que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé sofreram o castigo divino por causa dos seus pecados?
Amados irmãos, amadas irmãs,
tem gente que gosta de ter conhecimento bíblico para usar a Bíblia para julgar os outros. Muitas pessoas se acham perfeitas, puras e melhores que as outras; mais “religiosas” que as outras. Quando isso acontece, é fácil julgar e apontar para o erro dos outros. Muitas pessoas podem estar com as mãos cheias de pedras prontas a serem arremessadas a quem estiver à sua frente. Em momentos de tragédias onde as pessoas precisam acima de tudo de misericórdia, cuidado e empatia, também há os “juízes de plantão” prontos para apontar que as causas da tragédia são estes ou aqueles “pecados” cometidos.
Sigmund Freud explica que diante do caos, da insegurança e da desproteção, há uma necessidade humana de encontrar algum sentido transcendental que seja capaz de resolver seus conflitos internos e sanar a sua busca por segurança, proteção e cuidado1. Esse fenômeno volta a acontecer quando o ser humano enfrenta crises, calamidades e tragédias. Como não consegue encontrar uma explicação lógica, atribui à desgraça um novo significado: “é castigo de Deus por causa disso, daquilo e daquilo lá”.
Tragédias tem a capacidade de criar no ser humano uma busca por respostas que façam sentido e tragam alguma paz diante do caos – para que eu esteja seguro e isso nunca aconteça comigo. Aqueles que se achegaram a Jesus também buscavam por respostas. Alguns galileus estavam oferecendo seus próprios sacrifícios no templo de Jerusalém. Neste momento, foram mortos e o sangue deles se misturou ao sangue dos sacrifícios. Qual é a resposta lógica? “Essa desgraça aconteceu em suas vidas porque eram muito pecadores”; contudo, a resposta de Jesus é outra: “Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lucas 13.2-3). A resposta de Jesus muda o foco do olhar, passando do próximo para o próprio coração. Quem deve estar “na mira” não é a outra pessoa, mas a minha própria vida – e buscar urgentemente o arrependimento para que o pecado não me afaste ainda mais de Deus.
Além dos galileus, Jesus deu outro exemplo: “Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lucas 13.4-5). Novamente: a resposta humana julga o seu próximo ao invés de oferecer misericórdia às famílias enlutadas; a resposta de Jesus retira da mira o próximo e coloca no lugar o olhar para o próprio coração.
As pedras precisam cair no chão porque se olharmos muito bem a nossa própria vida, perceberemos que também mereceríamos o castigo – e que não somos melhores que ninguém. Todos nós somos como essa figueira que não dava frutos. Deus é misericordioso e concede uma chance ao pecador de se arrepender e dar frutos. Contudo, caso não dê fruto, poderá ser cortada. A parábola da figueira foi contada por Jesus para que seus ouvintes avaliem a própria vida e se tem dado fruto – e não para julgarem a vida do seu próximo. A pergunta que seus ouvintes precisam fazer é se eles estão dando frutos – e não se as outras pessoas estão dando frutos ou são mais ou menos pecadoras. Jesus não ordenou que as pessoas sejam mais puras umas que as outras para terem motivo de se compararem mutuamente, mas para que internamente conheçam seus pecados e busquem, em arrependimento sincero e verdadeiro, pela misericórdia de Deus.
Amados irmãos, amadas irmãs,
é fácil julgar, é fácil apedrejar, é fácil culpar... É fácil achar motivos e respostas para o caos e para tragédias. Nesse texto, contudo, Jesus nos desautoriza a fazermos isso. Cada pessoa deve olhar para os seus próprios pecados. Cada pessoa deve olhar para dentro da sua própria vida. Cada pessoa deve buscar para si o arrependimento e a conversão.
Nós estamos no tempo da Quaresma. Esse tempo é especificamente pensado para ser um tempo de reflexão, arrependimento e conversão. É tempo de olhar para dentro das nossas vidas e de perguntarmos se temos dado frutos ou se temos apenas “consumido os nutrientes da terra; de olhar para dentro das nossas vidas e perguntarmos se nos questionamos sobre os nossos pecados tanto quanto gostamos de julgar aos outros; de olhar para dentro das nossas vidas e buscar a transformação.
Isaías 59.2 diz: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus”. Você não deve perguntar se as outras pessoas estão separadas ou longe de Deus, mas se você caminha com Deus. O pecado nos separa de Deus. A Quaresma é tempo de dizer ao próprio coração: eu não quero que aquilo que me afasta de Deus tenha lugar na minha vida! Não é tempo de julgar a vida dos outros (nunca é tempo), mas de olhar para si mesmo e buscar ainda mais a misericórdia de Deus.
O Senhor nos ajude a não cairmos em respostas rápidas que mais fazem sofrer do que auxiliam. Sofrimentos não são castigos divinos; se fossem, o castigo sofrido por Jesus foi inútil e os sofrimentos humanos substituiriam o sacrifício de Cristo. A única tragédia capaz de nos salvar é a tragédia da cruz. Na loucura do Deus que morreu está a salvação do ser humano. Somente nele! Mesmo na tragédia da cruz, Deus nos abraça com o seu amor e com a sua misericórdia. Recebamos esse abraço carinhoso de Deus como conforto, consolo e ajuda.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes, em Cristo Jesus, amém.
Notas e referências
Cf. FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão – 1927. in: FREUD, Sigmund. Obras completas. v. 17. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 231-301.
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