Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Mãos compartilham pão sobre uma mesa simples.Pregações

Tudo ou nada

Amados irmãos, amadas irmãs,

Jesus quer ser tudo em sua vida! Tudo ou nada! Jesus não quer fazer parte apenas de uma parte das nossas vidas; Jesus não quer ser chamado apenas quando precisamos de pão; Jesus não quer ser importante apenas quando tem algo a nos oferecer. Jesus é pão! E quer alimentar, nutrir e transformar a nossa vida por completo.

Grandiosos milagres haviam acontecido. Jesus havia realizado o milagre da multiplicação de pães e peixes (cf. João 6.1-15) e andado sobre o mar (cf. João 6.16-21). Diante de grandes feitos, os seres humanos se surpreendem. Ao realizar grandes feitos, o ser humano procura a honra, a glória, a exaltação... Mas não é este o caso de Jesus. A multidão o procura, mas ele não aceita seus elogios por seus milagres. Jesus não quer qualquer honra mundana – pois ele sabe que irá para a desonra da cruz. Jesus não estava em busca de ser honrado pela humanidade, mas em ser a salvação da humanidade. Os sinais e o pão temporal passam; Jesus, porém, é pão da vida – alimento completo e para sempre!

Jesus realizou grandes sinais. Multidões buscam a Jesus porque o enxergam como um “milagreiro”. Querem os milagres, mas não querem o Senhor dos milagres; querem as bênçãos, mas rejeitam aquele que abençoa; querem os sinais, mas se negam a olhar para a direção sinalizada. O milagre foi bom – e a Palavra de Jesus foi dura: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (João 6.26). Querem o pão temporal, mas desprezam o pão da vida; querem o pão que enche o estômago, mas negam o pão que conduz para a vida eterna; enfim, queremos Deus nas coisas terrenas, mas nos negamos a crer nas coisas eternas.

Multidões continuam buscando em Jesus aquele que dá o pão do dia a dia e rejeitando aquele que é o próprio pão da vida. Multidões continuam oferecendo a sua vida apenas em parcelas – enquanto Jesus quer nos alimentar por completo. Você está com a multidão? Onde você está depositando a sua vida? Em valores mundanos ou nos valores que são eternos?

Agostinho de Hipona, Pai da Igreja, escreveu:

Quantos não buscam a Jesus somente para obter favores temporais? Um homem tem negócios e pede a intercessão dos sacerdotes; outro é perseguido por alguém poderoso e se refugia na Igreja. Raras vezes, porém, Jesus é buscado por si só.1

Muitas pessoas buscam a Jesus por causa do pão que ele pode dar e não pelo pão que ele é! Jesus se doou completamente e plenamente a nós. Ele não apenas nos deu algo, ele se deu a nós para que nós nos doássemos uns aos outros. Isso é plenitude de vida! Vida plena é que Jesus seja tudo em nossa vida para que Jesus viva em nós e nós estejamos nele! Fé cristã não é em primeiro lugar acreditar em coisas, mas uma experiência e um relacionamento integral com Cristo. Depois disso é que vem uma doutrina, uma liturgia, um modo de ser... Mas antes precisa estar Cristo!

O sinal não possui um fim em si mesmo. Um milagre não possui um fim em si mesmo. Uma obra não possui um fim em si mesma. O objetivo do sinal, do milagre e da obra é apontar para algo fora de si. O objetivo dos sinais, milagres e obras de Jesus é apontar para ele, o pão da vida. E o objetivo da vida cristã é viver com Jesus para o próximo.

O problema é o nosso ego – assim como fora o ego da multidão. Nosso ego quer tudo para si. Nosso ego faz a nossa vida estar centrada apenas em si. Recebi pão, quero mais pão. Recebi sinais, quero mais sinais. Recebi bênçãos, quero mais bênçãos. E quando não fazem o que meu ego quer, quando não dizem as palavras que meu ego quer ouvir, quando não colocam o meu ego onde ele quer estar, como uma criança, entro em desespero, esperneio, protesto... Sinais de uma vida onde Jesus ainda não é o pão da vida.

Jesus ser o pão da vida significa diaconia, ou seja, serviço. Na continuação do capítulo, Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele.” (João 6.51, 53-56). Jesus não quer honras, elogios ou a glória mundana. Ele sabe que vai para a cruz! E na morte de cruz se doará como pão da vida para que vivamos. Não se trata apenas de acreditar em Jesus, mas amá-lo! Novamente, trago palavras de Agostinho de Hipona:

O Senhor não disse: “Que acrediteis que ele existe”, mas: Que acrediteis nele. Com efeito, não basta acreditar na sua existência para acreditar nele, pois também os demônios acreditavam na sua existência, sem que por isso acreditassem nele. E nós acreditamos na existência de Paulo, mas não acreditamos em Paulo. Acreditar nele, portanto, é amá-lo acreditando, adorá-lo acreditando, ir até ele acreditando e incorporar-se como membro do seu corpo.2

Acreditar nele significa amá-lo. E amar ao Senhor Jesus Cristo significa confiar a ele toda a nossa vida. Confiar nele quer haja sinais, quer não haja sinais; confiar nele quer haja milagres, quer não haja milagres; confiar nele quer ele nos diga sim ou nos diga não. Confiar nele como pão da vida que nos alimenta de uma vez por todas e para toda a eternidade.

No Antigo Testamento, o Senhor manifestou a sua glória e se tornou conhecido entre o seu povo ao dar do pão (cf. Êxodo 16.2-4, 9-15); no Novo Testamento, Deus se tornou conhecido em Jesus que é o verdadeiro pão do céu, que desce do céu e dá vida ao mundo (cf. João 6.24-35). A Santa Ceia – também chamada de Eucaristia – é o momento desse encontro: a Presença Real de Jesus Cristo entre o seu povo. Ao comer seu corpo na Santa Ceia, pertencemos ao Corpo de Cristo (cf. Efésios 4.1-16). E não é à toa que após a ressurreição, os discípulos reconheceram o Senhor quando ele partiu o pão (cf. Lucas 24.13-35).

O que Jesus desejava não era apenas realizar grandes sinais para receber glórias mundanas e ter uma reputação mundana. Jesus não queria ser elogiado e viralizar por causa dos sinais que manifestava. Ele ocultou a glória e escolheu o caminho da cruz. Ele negou o caminho do sucesso e aceitou voluntariamente o caminho para o fracasso – para estar do lado dos fracassados. Ele escolheu voluntariamente o caminho da morte para que nós tenhamos vida e vida em abundância. Essa é a diaconia de Jesus. Tudo isso ele fez por nós. Tudo isso nos concedeu por graça. Tudo isso realizou pela nossa salvação eterna.

Amados irmãos, amadas irmãs,

o que está alimentando a sua vida? Quais ideias estão alimentando a sua mente? Quais ensinamentos estão tomando conta do seu coração? Será que Jesus, o pão da vida, está no centro? Será que ele faz parte de toda a sua vida? Você acredita em Jesus ou ama a Jesus? Você já tomou a decisão de entregar toda a sua vida a Cristo? E de declarar publicamente que somente Cristo é o seu Senhor e o seu suficiente Salvador? Ou você está buscando vários caminhos? Um pouco de experiência religiosa aqui... Depois um pouco de espiritualidade ali... Depois um pouco também aqui na comunidade...

Ou Jesus é tudo pra você ou não é nada! Seguir a Jesus significa confiar nele. Confiar em Jesus e se abandonar e ir até ele. Obedecer! Obediência requer negar as vontades do próprio ego para que Jesus seja tudo em nós, por nós e por meio de nós. Ele veio para servir e dar sua vida em resgate de muitos (cf. Marcos 10.45). Quem vive com Cristo, serve! Quem vive com Cristo, ama! Quem vive com Cristo, partilha! E faz não para receber sinais, milagres ou obras divinas em troca; faz porque é grato por tudo o que já recebeu – não apenas na vida temporal, mas para toda a eternidade.

Jesus quer ser Senhor de toda a sua vida. Toda! De cada parte, de cada emoção, de cada vontade, de cada sonho, de cada palavra, de cada propriedade, de cada relação. Toda! Ele sozinho é suficiente para ser o nosso alimento para toda a eternidade. Como diz duas estrofes do hino “Cristo estava preso nas amarras da morte” escrito por Martinho Lutero:

Eis aqui o verdadeiro cordeiro pascoal

preceituado por Deus;

no tronco da cruz

em ardoroso amor ele foi assado,

seu sangue marca a nossa porta.

Com isso a fé enfrenta a morte,

o estrangulador não consegue nos tocar.

Nós comemos e vivemos em fartura

com o verdadeiro bolo pascoal.

O velho fermento não deve

ficar misturado à palavra da graça.

Cristo quer ser o alimento

e nutrir sozinho a alma,

a fé não quer viver de outro.3 Amém.

Notas e referências

  1. AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: exposição contínua sobre os Evangelhos. v. 4: Evangelho de São João. Campinas: Eclesia, 2021. p. 221.

    ↩
  2. AQUINO, 2021. p. 222. Grifos do autor.

    ↩
  3. LUTERO, Martinho. "Christ lag in Todesbanden - 1524". in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Vida em Comunidade: Comunidade - Ministério - Culto - Sacramentos - Visitação - Catecismo - Hinos. v. 7. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2016. p. 523-524.

    ↩