PregaçõesTudo ou nada
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus quer ser tudo em sua vida! Tudo ou nada! Jesus não quer fazer parte apenas de uma parte das nossas vidas; Jesus não quer ser chamado apenas quando precisamos de pão; Jesus não quer ser importante apenas quando tem algo a nos oferecer. Jesus é pão! E quer alimentar, nutrir e transformar a nossa vida por completo.
Grandiosos milagres haviam acontecido. Jesus havia realizado o milagre da multiplicação de pães e peixes (cf. João 6.1-15) e andado sobre o mar (cf. João 6.16-21). Diante de grandes feitos, os seres humanos se surpreendem. Ao realizar grandes feitos, o ser humano procura a honra, a glória, a exaltação... Mas não é este o caso de Jesus. A multidão o procura, mas ele não aceita seus elogios por seus milagres. Jesus não quer qualquer honra mundana – pois ele sabe que irá para a desonra da cruz. Jesus não estava em busca de ser honrado pela humanidade, mas em ser a salvação da humanidade. Os sinais e o pão temporal passam; Jesus, porém, é pão da vida – alimento completo e para sempre!
Jesus realizou grandes sinais. Multidões buscam a Jesus porque o enxergam como um “milagreiro”. Querem os milagres, mas não querem o Senhor dos milagres; querem as bênçãos, mas rejeitam aquele que abençoa; querem os sinais, mas se negam a olhar para a direção sinalizada. O milagre foi bom – e a Palavra de Jesus foi dura: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (João 6.26). Querem o pão temporal, mas desprezam o pão da vida; querem o pão que enche o estômago, mas negam o pão que conduz para a vida eterna; enfim, queremos Deus nas coisas terrenas, mas nos negamos a crer nas coisas eternas.
Multidões continuam buscando em Jesus aquele que dá o pão do dia a dia e rejeitando aquele que é o próprio pão da vida. Multidões continuam oferecendo a sua vida apenas em parcelas – enquanto Jesus quer nos alimentar por completo. Você está com a multidão? Onde você está depositando a sua vida? Em valores mundanos ou nos valores que são eternos?
Agostinho de Hipona, Pai da Igreja, escreveu:
Quantos não buscam a Jesus somente para obter favores temporais? Um homem tem negócios e pede a intercessão dos sacerdotes; outro é perseguido por alguém poderoso e se refugia na Igreja. Raras vezes, porém, Jesus é buscado por si só.1
Muitas pessoas buscam a Jesus por causa do pão que ele pode dar e não pelo pão que ele é! Jesus se doou completamente e plenamente a nós. Ele não apenas nos deu algo, ele se deu a nós para que nós nos doássemos uns aos outros. Isso é plenitude de vida! Vida plena é que Jesus seja tudo em nossa vida para que Jesus viva em nós e nós estejamos nele! Fé cristã não é em primeiro lugar acreditar em coisas, mas uma experiência e um relacionamento integral com Cristo. Depois disso é que vem uma doutrina, uma liturgia, um modo de ser... Mas antes precisa estar Cristo!
O sinal não possui um fim em si mesmo. Um milagre não possui um fim em si mesmo. Uma obra não possui um fim em si mesma. O objetivo do sinal, do milagre e da obra é apontar para algo fora de si. O objetivo dos sinais, milagres e obras de Jesus é apontar para ele, o pão da vida. E o objetivo da vida cristã é viver com Jesus para o próximo.
O problema é o nosso ego – assim como fora o ego da multidão. Nosso ego quer tudo para si. Nosso ego faz a nossa vida estar centrada apenas em si. Recebi pão, quero mais pão. Recebi sinais, quero mais sinais. Recebi bênçãos, quero mais bênçãos. E quando não fazem o que meu ego quer, quando não dizem as palavras que meu ego quer ouvir, quando não colocam o meu ego onde ele quer estar, como uma criança, entro em desespero, esperneio, protesto... Sinais de uma vida onde Jesus ainda não é o pão da vida.
Jesus ser o pão da vida significa diaconia, ou seja, serviço. Na continuação do capítulo, Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele.” (João 6.51, 53-56). Jesus não quer honras, elogios ou a glória mundana. Ele sabe que vai para a cruz! E na morte de cruz se doará como pão da vida para que vivamos. Não se trata apenas de acreditar em Jesus, mas amá-lo! Novamente, trago palavras de Agostinho de Hipona:
O Senhor não disse: “Que acrediteis que ele existe”, mas: Que acrediteis nele. Com efeito, não basta acreditar na sua existência para acreditar nele, pois também os demônios acreditavam na sua existência, sem que por isso acreditassem nele. E nós acreditamos na existência de Paulo, mas não acreditamos em Paulo. Acreditar nele, portanto, é amá-lo acreditando, adorá-lo acreditando, ir até ele acreditando e incorporar-se como membro do seu corpo.2
Acreditar nele significa amá-lo. E amar ao Senhor Jesus Cristo significa confiar a ele toda a nossa vida. Confiar nele quer haja sinais, quer não haja sinais; confiar nele quer haja milagres, quer não haja milagres; confiar nele quer ele nos diga sim ou nos diga não. Confiar nele como pão da vida que nos alimenta de uma vez por todas e para toda a eternidade.
No Antigo Testamento, o Senhor manifestou a sua glória e se tornou conhecido entre o seu povo ao dar do pão (cf. Êxodo 16.2-4, 9-15); no Novo Testamento, Deus se tornou conhecido em Jesus que é o verdadeiro pão do céu, que desce do céu e dá vida ao mundo (cf. João 6.24-35). A Santa Ceia – também chamada de Eucaristia – é o momento desse encontro: a Presença Real de Jesus Cristo entre o seu povo. Ao comer seu corpo na Santa Ceia, pertencemos ao Corpo de Cristo (cf. Efésios 4.1-16). E não é à toa que após a ressurreição, os discípulos reconheceram o Senhor quando ele partiu o pão (cf. Lucas 24.13-35).
O que Jesus desejava não era apenas realizar grandes sinais para receber glórias mundanas e ter uma reputação mundana. Jesus não queria ser elogiado e viralizar por causa dos sinais que manifestava. Ele ocultou a glória e escolheu o caminho da cruz. Ele negou o caminho do sucesso e aceitou voluntariamente o caminho para o fracasso – para estar do lado dos fracassados. Ele escolheu voluntariamente o caminho da morte para que nós tenhamos vida e vida em abundância. Essa é a diaconia de Jesus. Tudo isso ele fez por nós. Tudo isso nos concedeu por graça. Tudo isso realizou pela nossa salvação eterna.
Amados irmãos, amadas irmãs,
o que está alimentando a sua vida? Quais ideias estão alimentando a sua mente? Quais ensinamentos estão tomando conta do seu coração? Será que Jesus, o pão da vida, está no centro? Será que ele faz parte de toda a sua vida? Você acredita em Jesus ou ama a Jesus? Você já tomou a decisão de entregar toda a sua vida a Cristo? E de declarar publicamente que somente Cristo é o seu Senhor e o seu suficiente Salvador? Ou você está buscando vários caminhos? Um pouco de experiência religiosa aqui... Depois um pouco de espiritualidade ali... Depois um pouco também aqui na comunidade...
Ou Jesus é tudo pra você ou não é nada! Seguir a Jesus significa confiar nele. Confiar em Jesus e se abandonar e ir até ele. Obedecer! Obediência requer negar as vontades do próprio ego para que Jesus seja tudo em nós, por nós e por meio de nós. Ele veio para servir e dar sua vida em resgate de muitos (cf. Marcos 10.45). Quem vive com Cristo, serve! Quem vive com Cristo, ama! Quem vive com Cristo, partilha! E faz não para receber sinais, milagres ou obras divinas em troca; faz porque é grato por tudo o que já recebeu – não apenas na vida temporal, mas para toda a eternidade.
Jesus quer ser Senhor de toda a sua vida. Toda! De cada parte, de cada emoção, de cada vontade, de cada sonho, de cada palavra, de cada propriedade, de cada relação. Toda! Ele sozinho é suficiente para ser o nosso alimento para toda a eternidade. Como diz duas estrofes do hino “Cristo estava preso nas amarras da morte” escrito por Martinho Lutero:
Eis aqui o verdadeiro cordeiro pascoal
preceituado por Deus;
no tronco da cruz
em ardoroso amor ele foi assado,
seu sangue marca a nossa porta.
Com isso a fé enfrenta a morte,
o estrangulador não consegue nos tocar.
Nós comemos e vivemos em fartura
com o verdadeiro bolo pascoal.
O velho fermento não deve
ficar misturado à palavra da graça.
Cristo quer ser o alimento
e nutrir sozinho a alma,
a fé não quer viver de outro.3 Amém.
Notas e referências
AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: exposição contínua sobre os Evangelhos. v. 4: Evangelho de São João. Campinas: Eclesia, 2021. p. 221.
↩AQUINO, 2021. p. 222. Grifos do autor.
↩LUTERO, Martinho. "Christ lag in Todesbanden - 1524". in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Vida em Comunidade: Comunidade - Ministério - Culto - Sacramentos - Visitação - Catecismo - Hinos. v. 7. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2016. p. 523-524.
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