Jornadas EspirituaisUma jornada para a Páscoa
Uma reflexão guiada de 5 dias sobre o hino “Christ Lag in Todesbanden” de Martinho Lutero com textos, orações e hinos. Acomode-se confortavelmente, respire fundo e prepara-se para uma jornada profunda e inspiradora sobre a Páscoa. Para aproveitar bem cada meditação diária, faça isso com tempo e ouvindo os hinos com atenção. Nos momentos de oração, aproveite para respirar fundo e perceber a presença de Deus com você.
Dia 1: Ninguém a morte dominou

Olá. Que bom ter você nesta reflexão guiada. Em 5 dias, vamos refletir sobre algumas estrofes do hino “Cristo estava preso nas amarras da morte” de Martinho Lutero. Prepare-se para uma jornada cheia de vida e vida em abundância.
Além de um grande teólogo, Martinho Lutero foi um excelente compositor. Muitas das suas músicas são entoadas no mundo inteiro até hoje, como o famoso hino luterano “Deus é Castelo Forte e Bom”. Lutero faleceu em 1546, mas sua obra musical continuou sendo usada e aprimorada por diversos músicos e compositores. Johann Sebastian Bach, o maior compositor de todos os tempos, criou diversos arranjos para coro e instrumentos para hinos de Lutero.
“Cristo estava preso nas amarras da morte” é um tesouro musical luterano pouco conhecido atualmente. Talvez pelo grau de dificuldade que este hino carrega – pois possui uma melodia nada familiar e natural. Esse é só mais um motivo para então o conhecermos melhor nesta semana de programas de rádio. Através desse hino, lembramos do tempo quaresmal que estamos vivendo já olhando para o futuro da Páscoa que se aproxima cada vez mais de nós. Convido, nesse momento, a ouvirmos uma versão do hino em português.
Oração: Senhor, viemos com humildade em tua presença. Hoje, Deus querido e misericordioso, confessamos a ti os nossos pecados sabendo que tens toda a intenção em nos perdoar e nos salvar. Sabemos, ó Deus, que o salário do pecado é a morte, mas também que o dom gratuito que nos concedes é a vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.
Em uma tradução literal da segunda estrofe, o texto do hino de Lutero diz: “Ninguém conseguia subjugar a morte entre os filhos dos homens. Culpado disso é o nosso pecado; não se conseguia encontrar inocência. Daí veio logo a morte e passou a nos dominar mantendo-nos presos em seu reino”.
Quanta profundidade bíblica e teológica há nessas palavras. Percebemos aqui um coração profundamente devoto ao Senhor e imerso no verdadeiro significado do pecado e da redenção, significado que não brotou de outro lugar senão da própria Palavra de Deus. Por isso, convido você a ouvir Romanos 6.8-11,23: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Sabemos que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vocês se considerem mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
A morte! Este é aquele tema delicado e na qual não gostamos de falar ou aquele assunto a qual respondemos “vira essa boca pra lá”, batendo três vezes na mesa. Ninguém gosta de falar da morte! Contudo, a morte é um fato! Talvez o fato mais real que existe! E a sabedoria ensina que ignorar a morte também pode ser um erro fatal, pois a inconsciência da própria finitude pode nos conduzir a uma vida desperdiçada em brigas, estresses e besteiras.
Querido leitor, querida leitora, a morte começou quando Adão e Eva desobedeceram a Deus no Jardim do Éden. Eles preferiram ouvir a palavra da serpente à Palavra de Deus. Foi assim que o pecado entrou no mundo. Mas, o que é o pecado?
Bem, na teologia luterana, há uma importante distinção entre “dois pecados”: O primeiro é o pecado original! Desde a desobediência de Adão e Eva, o pecado original faz parte da natureza humana. Somos intrinsecamente pecadores e pecadoras. Mesmo que queiramos, nós não podemos não pecar – dizia Agostinho de Hipona, Pai da Igreja. E não há nada em nós mesmos que possamos fazer para eliminar o pecado original das nossas vidas. Por isso, sua consequência – seu salário – é a morte! O segundo é aquilo que chamamos na teologia luterana de “os pecados-atos”, ou seja, as ações pecaminosas que cometemos. As nossas falhas diante de Deus e do próximo – ou seja, esses pecados-atos – são consequência do pecado original. Nós não nos tornamos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque já somos pecadores. A nossa natureza pecaminosa é anterior ao ato de pecar.
Foi assim que a morte entrou no mundo. A culpa disso é o nosso pecado, diz o hino de Lutero. E ele continua dizendo, como já lido: “Daí logo veio a morte e passou a nos dominar, mantendo-nos presos em seu reino”. A morte entrou no mundo como uma potência invencível, como a força mais poderosa que existe e da qual ninguém, nem mesmo animais, plantas e até estrelas não podem escapar! O reino da morte foi então o reino mais poderoso sobre a face da terra. Foi então necessário que alguém fosse mais poderoso que a morte para conseguir vencê-la por ela mesma para que, pela morte, trouxesse a esperança da vida à humanidade. Quem fez isso? Jesus Cristo, o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade. Mas esse será o tema do próximo programa da nossa série. Agora, convido você a falarmos com Deus:
Todo-Poderoso Deus e Pai. Compadece-te de nós, pois estamos aflitos por causa dos nossos pecados. Senhor, sê misericordioso. Jesus Cristo, Filho de Deus, que por nós nasceste homem, morreste e ressuscitaste, voltando ao Pai, tem piedade de nós, para que te sejamos gratos. Espírito Santo, consolador dos corações aflitos, que apagas toda a dor do pecado, vem e habita em nós, a fim de que cumpramos tua santa vontade. E agora, oramos juntos a oração que Jesus Cristo nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não morra, mas tenha a vida eterna”. (João 3.16). A partir dessa maravilhosa promessa, fique e permaneça na paz do Senhor, amém. Até amanhã.
Dia 2: Foi uma guerra assombrosa

Olá. Que bom ter você aqui mais uma vez.
Como vencer a morte? Bem, como conversamos no último programa, após a queda de Adão e Eva em Gênesis 3, a morte se tornou uma das forças mais poderosas do universo, engolindo tudo: seres humanos, animais, plantas, estrelas, galáxias... E durante a história surgiram imagens para representar essa força consumidora de tudo o que é vivo. Uma dessas imagens é aquela conhecida cena de alguém com um manto preto e uma foice nãos mãos, pronto para ceifar a vida de alguém. Mas, a morte perdeu o seu poder no dia em que foi vencida de dentro para fora por aquele que é o próprio autor da vida! Enquanto pensamos sobre isso, vamos ouvir a quarta estrofe no original em alemão conforme o arranjo para coro e instrumentos de Johann Sebastian Bach. Se você, como eu, não sabe alemão, tente perceber como Bach incorporou sons de guerra em seu arranjo usando vozes e instrumentos musicais:
Oramos: Senhor, nem sempre damos valor à luta que assumiste por nós ao aceitares a morte para nos trazer vida. Mesmo sendo verdadeiramente Deus, passaste pela morte como verdadeiro humano, mas sem deixar de ser Deus, para que tenhamos a esperança da abundância da vida que nos ofereces. Ensina-nos, firma-nos e dá-nos ainda mais clareza dessa esperança neste momento de devoção para que neste tempo de quaresma possamos voltar a ti – enquanto há tempo oportuno. Amém.
Ouçamos a leitura bíblica de 1 Coríntios 15.54-57 onde o apóstolo Paulo nos diz: “E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte pela vitória.” “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é vão”.
O pecado e a morte foram vencidos pelo Filho de Deus que se fez fraco na cruz. É interessante perceber que o poder quase infalível da morte foi vencido através da fraqueza do Deus crucificado. É no poder da fraqueza que a morte foi engolida, foi “tragada” pela vitória, como disse o apóstolo Paulo. Talvez, poderia usar uma palavra ainda mais forte: a morte foi “devorada” pela vitória do Filho de Deus.
Martinho Lutero traduziu bem essas palavras na quarta estrofe do seu hino “Cristo estava preso nas amarras da morte”. O reformador alemão escreveu algo bem profundo. Leia com atenção esse texto: “Foi uma guerra assombrosa, quando a morte e a vida se degladiaram. A vida alcançou vitória, ela tragou a morte. A Escritura anunciou como uma morte devorou a outra, a morte virou motivo de deboche”.
Poderíamos ficar aqui pensando e assimilando frase por frase da quarta estrofe do hino de Lutero. Seu tesouro reside justamente no fato que são palavras e frases que brotam diretamente do Evangelho como uma fonte a jorrar Bíblia e Teologia.
Lutero disse que “uma morte devorou a outra”. Paradoxalmente, Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem precisou morrer para alcançar a vitória sobre a morte. Em uma linguagem assombrosa, poderíamos dizer que ele foi engolido por ela para sair dela rasgando-a ao meio e, assim, vencendo-a. E agora, a morte se tornou motivo de deboche. Sua força acabou. Seu poder foi esgotado. Cristo venceu a morte! Há esperança de vida – a vida que dura para sempre através da Ressurreição do Senhor, a Páscoa – e também a nossa própria Páscoa – que se aproxima.
Contudo, essa esperança não significa flertar com a morte. Em seu hino, Lutero está falando às almas angustiadas ou até mesmo desacreditadas da promessa de salvação. A ênfase aqui está em que encaremos o dia da nossa morte como um dia de vitória. Mas isso não significa, de modo algum, a decisão de descuidar da própria vida, da vida do próximo e da Criação. Por isso, para Lutero, o primeiro uso da Lei – que é o uso civil da Lei – tem como objetivo a preservação da vida. A esperança da vitória sobre a morte e da vida eterna não deve nunca jamais banalizar a vida humana. Sabedoria é ouvir o que foi ensinado pelo salmista conforme o Salmo 90.12: “Ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos coração sábio”. Vamos ouvir agora um hino tradicional da Sexta-feira da Paixão que adiantamos para hoje para complementar a nossa reflexão:
Oração: Senhor, nosso Deus e Pai, de toda misericórdia. Suplicamos a ti não apoiados em nossa justiça, retidão ou obras, mas somente em tua grande misericórdia. Senhor, tem piedade do teu povo. Perdoa o nosso pecado e auxilia-nos para que creiamos com sabedoria na promessa da vida eterna. Obrigado Senhor Jesus que, morrendo, devoraste a morte de dentro para fora, concedendo-nos a esperança de que sobrou a nós apenas a aparência da morte e que, por isso, também nós, em ti, venceremos a morte. E agora, o que angustia nossas vidas e corações, deixamos em tua presença na oração que teu Filho Unigênito nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
“Nós somos justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus”. (Romanos 3.34). Siga sua vida com confiança sabendo que a morte foi tragada pela vitória. Amém.
Dia 3: O verdadeiro Cordeiro Pascoal

Olá. Que bom ter você aqui mais uma vez para continuarmos a nossa jornada.
Os melhores momentos da convivência familiar são os momentos em que a família pode estar ao redor da mesa para uma refeição. Pode ser aquele churrasco com maionese no Domingo, aquela galinhada em uma noite fria ou até mesmo uma simples roda de chimarrão com boa conversa. Estes momentos são marcados por uma liberdade pouco encontrada em outros lugares. É aquele momento de alegria, uma brincadeira inocente ou para contar como foi sua última semana. Enfim, não é à toa que Jesus tenha instituído a Santa Ceia exatamente no contexto de uma refeição. Estar ao redor de uma mesa é estar em um lugar de intensa comunhão.
Oração: Senhor, agradecemos hoje pelos momentos de refeição que podemos ter com a nossa família, momentos de imensa comunhão e, ao mesmo tempo, de imensa liberdade. Agradecemos também pela refeição que nos ofereces através da Santa Comunhão onde através do pão e do fruto da videira sabemos da tua Presença Real entre nós na União Sacramental. Conceda que possamos ver essa refeição também como intimidade contigo e como confirmação de que nossos pecados são perdoados e que, por graça, somos salvos do pecado, da morte e do inferno. Amém.
A nossa leitura de hoje é de 1 Coríntios 11.23-28, palavras conhecidas e que são usadas na Instituição da Ceia do Senhor, onde está escrito: “Porque eu recebi do Senhor que também lhes entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tendo tomado o pão e dado graças, o partiu e disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós, fazei isto em memória de mim.” Do mesmo modo, após haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isso todas as vezes que o beberem, em memória de mim.” Porque, todas as vezes que comerem este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer ou pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo e, assim, coma do pão e beba do cálice”.
A Confissão de Augsburgo, principal escrito confessional da Igreja Luterana, ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie de pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos. Através da Santa Ceia, torna-se conhecida a vontade de Deus para o ser humano e, quando administrada corretamente, fortalece a fé.
A Santa Ceia não é simbólica. O pão (ou hóstia) e o suco do fruto da videira não estão apenas representando o corpo e o sangue de Cristo; a Santa Ceia também não é simplesmente memória de Cristo – embora a memória seja fundamentalmente importante. Na Santa Ceia também não sacrificamos novamente a Jesus causando uma transformação do pão em corpo de Cristo e do suco do fruto da videira no sangue de Cristo. Mas então, o que acontece na Santa Ceia? Ali estão verdadeiramente presentes o corpo e o sangue de Cristo ao mesmo tempo em que o pão continua sendo pão e o suco do fruto da videira continua sendo o que é! O pão é, ao mesmo tempo, o corpo de Cristo e o suco é, ao mesmo tempo, o sangue de Cristo, mas o pão sem deixar de ser pão e o suco sem deixar de ser suco. Esse é o sinal visível da promessa da Palavra de Deus esta refeição é dada em favor de nós para a remissão dos pecados!
Em seu hino “Cristo estava preso nas amarras da morte”, Lutero traduziu o significado da Santa Ceia com uma belíssima poesia bíblica e teológica, dizendo: “Eis aqui o verdadeiro cordeiro pascoal enviado por Deus; no tronco da cruz, em ardoroso amor ele foi assado, seu sangue marca nossa porta. Com isso a fé enfrenta a morte, o estrangulador não consegue nos tocar”. Lutero viu o evento da cruz como uma fornalha onde Cristo foi assado como um pão por nós; da mesma forma, “seu sangue marca a nossa porta” nos remete à 10ª praga no Egito – a morte dos primogênitos – onde, para serem salvos da praga, o povo de Deus precisou marcar a porta de suas casas com o sangue do cordeiro. Da mesma forma, o sangue derramado na cruz e distribuído na Santa Ceia sob a forma de suco do fruto da videira traz salvação. Eis a importância do Sacramento da Santa Ceia do Senhor: através dela, temos a confirmação do perdão e a certeza da vida eterna. Por isso, a partir do recebimento da Ceia do Senhor, a fé enfrenta a morte! Após o recebimento da Santa Ceia, podemos ficar alegres, felizes e exultantes por todos os presentes que Deus, na intimidade da refeição, nos concedeu gratuitamente.
Oração: Senhor, Deus onipotente, Pai misericordioso, escuta agora a nossa oração. Obrigado que providenciaste a abundância da tua graça para a salvação de nós seres humanos pecadores. Assim, fomos reconciliados contigo através do teu Cordeiro que tira o pecado do mundo. Através do Sacramento da Ceia, ensina-nos e confirma-nos o teu perdão. Assim, ajuda-nos a enfrentarmos nossos medos a partir da abundância da graça que nos ofereces.
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
“Fiel é a Palavra e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”. (1 Timóteo 1.15). Vá em paz e, sempre que possível, receba do Santo Sacramento da Ceia do Senhor com arrependimento e alegria. Ide na paz do Senhor, amém.
Dia 4: A Grande Festa

Festa! Como é bom haver momentos de celebração, alegria e comemoração. Pode ser uma festa de aniversário, de bodas de casamento ou de outras comemorações especiais. Poder festejar é algo importante na nossa caminhada pessoal e familiar. Contudo, a maior festa de todos os tempos já aconteceu – na verdade, não apenas aconteceu, mas ainda está acontecendo até hoje. E é sobre ela que vamos falar hoje.
Oremos: Senhor, obrigado pelos belos momentos de alegria que temos em nossas vidas. Obrigado também pela festa da vitória sobre o pecado, a morte e o inferno, onde o Senhor nos concedeu a felicidade do teu Reino para o qual em Cristo nos convidaste. Amém.
Vamos ler conforme o livro de Apocalipse 21.23-25, onde está escrito: “A cidade não precisará do sol nem da lua, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada. As nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua glória. Os seus portões jamais se fecharão de dia, pois nela não haverá noite. Então, já não haverá noite, e não precisarão de lamparina, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão para todo o sempre”.
A visão de João no livro de apocalipse nos traz uma imagem maravilhosa e cheia de esperança. É uma festa maravilhosa onde a glória de Deus está presente através do Cordeiro que é sua lâmpada. Ali não haverá trevas nem noite, mas apenas o sol fulgente que é o próprio Senhor.
Isso se conecta com o tema da nossa semana. Cristo, de fato, estava preso nas amarras da morte, entregue por nosso pecado. Mas, como de antemão sabemos na quaresma, ele ressuscitou. A Páscoa aconteceu. Cristo arrebentou as amarras da morte e se libertou de seu aguilhão, ou seja, do seu ferrão mortal! As cordas foram rompidas e a morte foi vencida. Isso é motivo de alegria. Mais do que isso: isso é motivo de festa, a verdadeira festa.
Por isso, Lutero escreveu em seu hino a seguinte estrofe: “Celebramos essa magna festa de coração, com alegria e prazer, que o Senhor faz brilhar sobre nós. Ele próprio é o sol; pelo brilho de sua graça, quer iluminar por inteiro o coração. A noite do pecado se foi”. A vitória de Jesus sobre o pecado, a morte e o inferno é motivo de sobra para a celebração da obra da pessoa de Cristo. Agora, após recebermos gratuitamente do Cristo que, como pão, foi assado da cruz e do suco do fruto da videira que foi derramado em seu sofrimento, celebramos ou festejamos a abundância da sua graça.
É como se a noite deixasse de existir. Não há mais trevas. Entretanto, essa é a promessa! Deus, como sol fulgente, já ilumina a nossa vida. Mas, até a nossa morte, permanecemos sendo simultaneamente justos e pecadores. Justos porque fomos justificados, ou seja, tornados pessoas justas através da morte de Cristo. Houve uma maravilhosa troca: Cristo, o justo, assumiu o nosso pecado para que nós, os pecadores, recebêssemos da sua justiça. Repito: Cristo, o justo, assumiu o nosso pecado para que nós, os pecadores, recebêssemos da sua justiça. Jesus fez uma troca conosco: o pecado passou a ser dele e a sua justiça passou a ser nossa. Contudo, somos simultaneamente ainda pecadores, pois continuamos naturalmente pecadores até nosso último suspiro. O bem que queremos fazer, não fazemos; o mal que não queremos fazer, esse fazemos, diz o apóstolo Paulo.
Em seu hino, Lutero colocou aqui um claro tom de comemoração. Vemos nestas palavras dessa estrofe em como ele mesmo foi beneficiado pelo milagre da salvação. Em sua vida, Lutero vivia momentos de extensa angústia por causa dos seus pecados. Por mais que tentasse ser uma pessoa justa, não conseguia através das penitências ou das obras. Não se sentia agradável a Deus. Inclusive, por vezes se deitou na geada para que, sofrendo, Deus tivesse pena dele. Quando Lutero descobriu a justificação pela fé e a graça de Deus, sua vida passou a ser marcada pela festa da Salvação. Não são suas obras ou penitências que salvam, mas exclusivamente a obra da Pessoa de Jesus Cristo. Lutero – e nós – precisamos por fé receber o que Cristo fez por nós. A gratuidade da salvação do ser humano pecador certamente é motivo de sobra para celebrar e se alegrar por tudo aquilo que Deus já realizou em nosso benefício.
Oração: Senhor, Deus onipotente, Pai misericordioso, hoje celebramos e festejamos diante de ti, com nosso coração, alegria e prazer, a luz que fizeste raiar para dentro de nossa profunda escuridão. Gratos somos que és o sol da vida e que tua graça fulgura e ilumina o nosso coração. Gratos somos que a noite do pecado ficou para trás e que a salvação já foi concretizada quando teu Filho Jesus Cristo declarou no alto da cruz “está consumado”. E agora, oramos como ele nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. (2 Coríntios 5.21). Vá em paz e celebre a vitória de Jesus como festa mais importante que já aconteceu e que continua acontecendo. Fique na paz do Senhor, amém.
Dia 5: Viver em fartura

Olá. Que bom ter você aqui conosco. Esta é a última reflexão guiada sobre o hino “Cristo estava preso nas amarras da morte” do reformador alemão Martinho Lutero.
Quando falamos sobre a graça de Deus, não há escassez. Uma das principais características da graça de Deus é a sua abundância. Ela nunca se esgota. Ela nunca acaba. Transborda e dura para sempre. Há verdadeira fartura na graça de Deus. É um bolo servido por Deus cujas fatias nunca se esgotam. Sempre estão disponíveis. E é sobre isso que vamos falar hoje a partir da última estrofe do hino de Lutero.
Oração: Ó Deus, viemos com toda a humildade agradecer hoje apenas pela abundância da tua graça – ela que, de tão abundante, é suficiente para nós não apenas para hoje, mas para todo o sempre. Dá que possamos ouvir tua voz graciosa nesta manhã para que nos alegremos ainda mais nos presentes que nos tens dado. Amém.
Ouçamos a leitura bíblica de hoje, conforme 1 Coríntios 5.6-8, onde está escrito: “Não é bom esse orgulho que vocês têm. Por acaso vocês não sabem que um pouco de fermento leveda a massa toda? Joguem fora o velho fermento, para que vocês sejam nova massa, como, de fato, já são, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento do mal e da maldade, mas como o pão sem fermento, o pão da sinceridade e da verdade”.
Querido e querida ouvinte, assim chegamos à última estrofe do hino “Christ lag in Todesbanden”, (Cristo estava preso nas amarras da morte) com letra e melodia do reformador Martinho Lutero. Sua reflexão sobre a morte e ressurreição do Senhor é profunda ao mesmo tempo em que também é bastante didática, ou seja: não é difícil de entender suas palavras.
Assim diz a última estrofe do hino: “Nós comemos e vivemos em fartura com o verdadeiro bolo pascoal. O velho fermento não deve ficar misturado à palavra da graça. Cristo quer ser o alimento e nutrir sozinho a alma. A fé não quer viver de outro”. Essa estrofe é tão interessante que, com a sua licença, eu gostaria que você a lesse mais uma vez: “Nós comemos e vivemos em fartura com o verdadeiro bolo pascoal. O velho fermento não deve ficar misturado à palavra da graça. Cristo quer ser o alimento e nutrir sozinho a alma. A fé não quer viver de outro”.
Aqui está a fartura da graça. Cristo é o bolo pascoal, ou seja, o bolo preparado por Deus e que jamais se esgota. Um bolo preparado e assado pelo próprio Deus através da morte de Jesus na Cruz onde o Filho Unigênito de Deus foi esmagado pelos nossos pecados. Ele, como alimento, é suficiente. Não precisamos usar o velho fermento para conquistar a salvação. Velho fermento aqui são as nossas obras e o ser humano que busca salvar a si mesmo por si mesmo. Não! O bolo foi oferecido gratuitamente. Há fartura de salvação. Não precisamos misturar nosso próprio fermento ao que Deus já fez. Ao contrário, ao receber da fartura daquilo que Deus já fez é que praticamos as boas obras – não para sermos salvos, mas porque já fomos salvos.
No final da última estrofe, Lutero arrematou o ensinamento mais importante da teologia luterana. Esse ensinamento diz: “Somente Cristo!”. “Cristo quer ser o alimento e nutrir sozinho a alma, a fé não quer viver de outro”. Ou seja: o bolo da graça e a fartura da salvação são oferecidos exclusivamente por Cristo! Somente Cristo! Não há outro meio ou caminho de salvação. O velho fermento pode até matar a fome momentaneamente, mas não tem a capacidade de nutrir e alimentar; o velho fermento pode dar um bom gosto na língua, mas não tem a capacidade de sustentar a pessoa – que vai enfraquecer; o velho fermento pode ter boa aparência, mas não poderá fazer bem à saúde. O verdadeiro e único alimento da Salvação é Cristo – Somente Cristo. Cristo, sozinho, não apenas mata a fome, mas alimenta e nutre; Cristo, sozinho, não apenas dá um bom gosto na língua, mas transforma o corpo inteiro no dia da ressurreição; Cristo, sozinho, não apenas nos mostrou o rosto misericordioso de Deus, mas nos serve gratuitamente a misericórdia divina. Eis a grande e maravilhosa promessa e esperança concedida pelo Senhor a nós, Pecadores. Que nossa fé não queira viver de outro, senão de Jesus.
Oração: Suplicamos, eterno e misericordioso Deus, pelo teu perdão e pela tua graça – que é abundante e nunca se esgota. Não nos deixe sermos autossuficientes, Senhor, pois isto certamente acabará mal. Conceda que possamos buscar viver tão somente a partir da fartura da tua graça. E agora, com humildade, oramos a oração que o teu Filho Unigênito Jesus Cristo nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
“Deus derramou sobre nós ricamente o Espírito Santo, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador. A fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”. (Tito 3.6-7). Fique sob a bênção de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, amém.