PregaçõesUniforme x Comunidade
Amados irmãos, amadas irmãs,
todos nós somos completamente diferentes. Temos visões diferentes. Temos tradições diferentes. Temos gostos diferentes. Temos opiniões diferentes. Temos partidos políticos diferentes. Torcemos para times de futebol diferentes. Gostamos de comidas diferentes, assim por diante.
Quando as crianças vão à escola, elas precisam usar o uniforme. O uniforme faz com que todas as crianças tenham uma uniformidade, sejam iguais, tenham uma só forma de identificação. Uniformidade é quando todos se tornam, por via de regra, iguais; já entre os cristãos, não se usa a uniformidade, pois somos diferentes, mas a comunidade, ou seja, a reunião das pessoas que possuem coisas em comum mesmo em suas diferenças. Temos cabelos diferentes, olhos diferentes, personalidades diferentes, etc., mas há uma coisa que nos torna comuns: a fé que temos em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Ele é o fundamento da unidade comum, da comunidade. E este fundamento não pode ser substituído por nenhum outro.
Certa vez, em uma visita que fiz a uma senhora de uma comunidade, ela me disse: “eu sou dona daquela igreja, fizemos tudo por aquela igreja.” A resposta que tive que dar foi inevitável: “que bom que a senhora ajudou, isso é gratificante. Mas o dono da Igreja é Jesus. Quem precisa se destacar na igreja não somos nós, mas Jesus.”
Viver comunidade significa viver a união de pessoas que tem algo em comum, mas também que partilham das suas diferenças de opinião. Muitas vezes, alguém gostaria que algo fosse feito assim, já outros gostariam que algo fosse feito de outro jeito. Uns gostariam que o churrasco fosse assado com lenha; outros gostariam que o churrasco fosse assado com carvão; essas diferenças fazem parte da diversidade que é a comunidade cristã. Contudo, estas e quaisquer outras discussões nunca podem encobrir o dono da igreja que é o Senhor Jesus Cristo e a quem a Igreja serve. Se as pequenas diferenças se tornam mais importantes que o próprio Senhor da igreja, então, algo está bem errado.
Este era o problema da comunidade dos Romanos. Ela foi fundada antes de Paulo. Antes que o apóstolo se tornasse um cristão, a boa nova da Salvação em Jesus Cristo já havia sido anunciada naquela importante cidade, nada menos do que a capital do Império. Não sabemos quem anunciou a Palavra aos romanos e nem quem fundou a comunidade. O único fato de que sabemos é que ela estava lá.
Mesmo assim, o apóstolo Paulo estava bastante preocupado com a comunidade. Começaram a haver divisões dentro dela. Quando cada um procura impor o seu ponto de vista sem abertura para o diálogo, o risco de um racha é mais do que óbvio. Havia irmãos que desejavam impor seu modo de vida aos outros. Este tipo de imposição não é viver comunidade, mas a tentativa da criação de uma uniformidade impossível. Ao invés de Cristo ser o fundamento da igreja, outras coisas começaram a ocupar o seu lugar. A tentativa da criação de uma uniformidade estava matando a comunidade.
A igreja em Roma era formada por judeus e gentios. O que significa isso? Havia nela pessoas que conheciam todas as leis de Moisés e todo o Antigo Testamento e havia nela também pessoas que nunca ouviram falar de Moisés e do Antigo Testamento. Havia homens judeus que haviam sido circuncidados ao 8º dia após o nascimento e havia homens que não davam bola para isso e não achavam isso importante. A igreja na capital, o coração, do Império Romano brigava por causa de coisas secundárias e, com isso, dia após dia, perdiam o fundamento da sua união que é o Senhor Jesus Cristo.
Por isso, no cap. 15 da sua carta aos Romanos, Paulo precisa chamar a atenção dos irmãos/ãs para que parem de tentar uniformizar a igreja. As palavras que ele diz são tanto para os judeus quanto para os não-judeus. Por isso, ele lembra a eles que “pois tudo o que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Romanos 15.4). Isso significa que as leis que alguns queriam tanto cumprir do Antigo Testamento e tentavam obrigar outros a fazer o mesmo, na verdade, não deveriam estar sendo usadas como uma forma de opressão e uniformização do pensamento. Ao contrário, estas palavras foram escritas para o ensino para que tenhamos esperança. Ou seja, para que a energia da comunidade não seja desperdiçada com aquilo que não produz nada; ao contrário, que a força da comunidade seja empenhada na esperança que eles têm em Jesus Cristo, o Senhor da Igreja, nosso único e suficiente Salvador.
Por isso, Paulo pede aos irmãos: “para que vocês, unânimes e a uma só voz, glorifiquem o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Romanos 15.6). Ou seja, Que a comunidade cristã se empenhe em manter a unidade ao invés de buscar a uniformidade.
Este versículo, em especial, me lembra de uma experiência que tive no mês passado e da qual alguns sabem: me arrisquei para ir até a Arena do Grêmio assistir o jogo do Grêmio contra o Flamengo. Alguns já aceitaram, outros não, mas isso não muda o fato de que sou Flamenguista “até morrer”. O que mais me chamou a atenção foi a unidade da torcida. É uma coisa fantástica. Todos estão com um mesmo pensamento e um mesmo objetivo. Quando um grupo começa a cantar alguma coisa, e poucos segundos todos estão cantando. Isso eu percebi não apenas na torcida em que eu estava sentado, mas também na outra que respondia a altura. A emoção do gol, por exemplo, é incomparável.
Tudo isso me chamou a atenção para o fato de que muitas vezes uma torcida de futebol é mais sincronizada e possui muito mais unidade do que a própria Igreja Cristã. Se também nós nos uníssemos para glorificarmos a Deus em uma só voz ao invés de darmos tanta importância para aquilo que é secundário, quanto que cresceriam nossas comunidades. Mas, muitas vezes, são exatamente as diferenças de opinião que não aceitamos que dividem o corpo de Cristo.
O que fazer então: “acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus.” (Romanos 15.7). Em outras palavras, não deixa pequenas besteiras separar aqueles a quem Deus uniu através de Jesus Cristo, nosso Senhor. Do versículo 7 ao 13, a conjugação do verbo por parte do apóstolo Paulo muda. Do 4 ao 6 ele usou termos individualizantes como nós e eles. Agora, o apóstolo Paulo usa o pronome vós/vocês se dirigindo a todos os/as irmãos/ãs, sem distinção das diferenças. Paulo lembra os irmãos com três citações do Antigo Testamento que o plano de Deus não era apenas a salvação dos judeus, mas também nos não-judeus (gentios):
1 “Por isso, eu te glorificarei entre os gentios e cantarei louvores ao teu nome.”
(2 Samuel 22.50 / Romanos 15.9);
2 “Alegrem-se, ó gentios, com o povo de Deus.”
(Salmo 64.7 / Romanos 15.10);
3 “Louvem o Senhor todos vocês, gentios, e todos os povos o louvem.”
(Salmo 117.1 / Romanos 15.11);
4 “Virá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios; nele os gentios esperarão.”
(Isaías 11.10 / Romanos 15.11);
Isso tem tudo a ver com o Advento. Não somos eles e nós. Somos todos um por causa de Cristo. Não estamos uniformizados na maneira de pensar e agir. Mas somos comunidade, pois temos algo em comum que gera unidade: Jesus Cristo. Ele que veio não apenas para os judeus, mas também para nós, não-judeus. Temos acesso ao Deus verdadeiro por causa do nosso irmão Jesus Cristo.
Diz a Palavra em João 1.11-12: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” Somos incluídos entre os amados de Deus não por causa dos nossos méritos, mas por causa de Cristo. Filhos de Deus são aqueles que creem no nome de Jesus Cristo.
Filhos são diferentes. Todos nós temos diferenças. Mas, continuamos pertencendo à grande família de Deus se cremos que Jesus Cristo é nosso irmão, nosso Senhor, nosso Salvador.
E, por fim, que “o Deus da esperança encha vocês de toda alegria e paz na fé que vocês têm, para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Romanos 15.13).
Amém.